Guerra de narrativas pode provocar disparada no preço do pneu de caminhão

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Guerra de narrativas pode provocar disparada no preço do pneu de caminhão

Indústria nacional de pneumáticos segue pressionando governo para boicotar importações de pneus de carga. Importadores reagem.

O mercado de pneus no Brasil é bastante concentrado em seis fabricantes nacionais que respondem por cerca de 70% das vendas. O resultado são os pneus mais caros do mundo. Um pneu de carga, que é vendido na China por R$ 500,00, no Brasil custa R$ 2.500,00.

São vários impostos e barreiras protecionistas que encarecem as importações e conferem proteção para que a indústria nacional siga reajustando preços quase que de forma linear, com margens de lucro bem acima da média mundial.

Essa dinânica de reajuste inclusive é alvo de investigação pela Polícia Federal e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), a partir de uma denúncia de formação de cartel contra uma fabricante de pneu nacional. A denúncia, acompanhada de gravações com dirigentes da multinacional, foi feita por um ex-representante da marca no Brasil e gerou o processo no Cade nº 08700.003265/2022-42.

Na avaliação do presidente da Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Pneus (Abidip), Ricardo Alípio, são denúncias graves que precisam ser apuradas e podem comprovar o que já é observado na prática pelo consumidor. “O mercado brasileiro de pneumáticos ainda é bastante fechado às importações. Isso inibe a competitividade, gera concentração de mercado e elevação artificial de preços. Estimuar a presença de diversas marcas de pneus importados no mercado brasileiro é fundamental para combater esses abusos, dar acesso ao consumidor às melhores tecnologias do mundo em pneus e forçar a melhoria do produto nacional”.

Uma carreta tem em média 22 pneus que rodam em estradas muitas vezes em péssimas condições, o que diminui a vida útil e faz com que o pneu seja o segundo item mais caro na manutenção do caminhão, ficando atrás apenas do diesel.

Para agravar ainda mais a situação, a entidade que representa as grandes multinacionais com fábricas de pneus no Brasil, a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip), recentemente passou a atacar a qualidade do pneu importado, além de ameaçar com fechamento de fábricas e demissões, caso o governo não aumente o imposto de importação.

O representante dos importadores repudia esse comportamento. Explica que a ofensiva da indústria nacional é uma afronta à própria credibilidade do governo e de seus órgãos de controle, como o Inmetro, uma vez que os pneus importados são submetidos aos mesmos testes de qualidade e eficiência dos nacionais por certificadoras acreditadas pela autarquia federal.

Ele acrescenta que o mercado consumidor de pneus de caminhão é exigente. “Transportadoras e caminhoneiros conhecem o produto e, se estão voltando a comprar o pneu importado, é porque tiveram boa experiência, confiam em sua durabilidade e segurança”.

Até o momento não houve nenhum comunicado oficial sobre prejuízos ou possibilidade de fechamento de fábricas de pneus no Brasil. “É uma ameaça vazia, uma falácia para procurar pressionar o novo governo a restabelecer o imposto de importação e diminuir a competição”, criticou o presidente da Abidip. 

No início de 2021 o governo federal reduziu à zero o imposto de importação para cinco medidas de pneus de carga em um esforço para conter o aumento generalizado de custos do transporte.

Pneu e inflação

O Brasil tem cerca de 1,5 milhão de caminhões. Toda a produção nacional ou importada chega às lojas e aos supermercados por caminhões. A equipe econômica do governo brasileiro continua vigilante com a inflação que permanece acima da meta.

Caso o governo ceda à pressão pelo imposto de importação, inevitavelmente haverá elevação no preço do pneu de carga – que já é quatro vezes mais caro no Brasil – repercutindo em inflação do pão, da cesta básica, dos remédios e de todos os produtos transportados pelo modal rodoviário.

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